AGĂNCIA BRASIL
Uma pesquisa elaborada pelo LaboratĂłrio de PolĂticas PĂșblicas e Internet (LAPIN), o Instituto de ReferĂȘncia Negra Peregum e a Rede Liberdade aponta problemas no sistema de vigilĂąncia da prefeitura de SĂŁo Paulo, o Smart Sampa. De acordo com a nota tĂ©cnica Smart Sampa: TransparĂȘncia para quem? TransparĂȘncia de quĂȘ?, o sistema apresenta resultados questionĂĄveis e fragilidades estruturais.
A partir do RelatĂłrio de TransparĂȘncia da prefeitura, divulgado em junho de 2025, e com informaçÔes obtidas pela Lei de Acesso Ă Informação (LAI), as entidades concluĂram que o sistema de videomonitoramento e reconhecimento facial do municĂpio tem gerado falsos positivos, prisĂ”es indevidas e riscos Ă privacidade, sem resultados concretos para a segurança pĂșblica.
âQuanto mais se aprofunda a avaliação sobre o Smart Sampa, mais se questiona a razĂŁo de sua existĂȘncia. Ă preciso indagar se o alto gasto pĂșblico destinado ao programa tem produzido resultados concretos, diante dos riscos impostos a direitos fundamentaisâ, afirmou Pedro Diogo, coordenador do LAPIN no Grupo de Trabalho sobre VigilĂąncia.
Desde 2023, o Smart Sampa opera com atĂ© 40 mil cĂąmeras e um custo mensal de R$ 9,8 milhĂ”es. De acordo com a anĂĄlise, falta ainda transparĂȘncia na gestĂŁo de dados e nos nĂșmeros oficiais, alĂ©m de inconsistĂȘncias na operação do sistema.
âO Smart Sampa aprofunda desigualdades raciais e geogrĂĄficas, reforçando um modelo de segurança pĂșblica que criminaliza determinados corpos e territĂłriosâ, avaliou Beatriz Lourenço, diretora de Ăreas e EstratĂ©gia do Instituto de ReferĂȘncia Negra Peregum.Â
De acordo com os dados do relatĂłrio, o sistema registrou 1.246 abordagens desde o inĂcio da operação, resultando em 1.153 prisĂ”es, das quais 540 foram classificadas pela prĂłpria prefeitura como âoutrosâ, sem detalhamento da motivação.
Crimes
Os tipos penais mais frequentes foram roubo (153), trĂĄfico de drogas (137) e furto (17). Segundo a anĂĄlise, os nĂșmeros reforçam âo carĂĄter patrimonialista e a adesĂŁo Ă polĂtica criminal baseada na falida âguerra Ă s drogasâ – cujo alvo histĂłrico Ă© a população negra.â
A partir de informaçÔes obtidas por pedido da Lei de Acesso Ă Informação (LAI), identificou-se que mais de 90% do que foi categorizado como âoutrosâ eram prisĂ”es por pensĂŁo alimentĂcia.Â
Para as entidades, o fato de os mandados relacionados Ă pensĂŁo alimentĂcia estarem entre os principais crimes evidencia que parte das prisĂ”es nĂŁo tĂȘm relação com a segurança pĂșblica. Dados da Secretaria de Estado da Segurança PĂșblica apontam registros recordes de feminicĂdios e alta de homicĂdios e de estupros, entre 2024 e 2025, na capital paulista.
De acordo com os dados, predominam prisĂ”es de pessoas de gĂȘnero masculino (93,58%), sem menção a pessoas trans. As entidades afirmam ainda que o perfil das pessoas presas reflete o viĂ©s racial e territorial do sistema, jĂĄ que 25% sĂŁo negras (18,49% pardas e 6,60% pretas) e 16,01% sĂŁo brancas, enquanto 58,9% dos registros nĂŁo trazem qualquer informação sobre raça. A avaliação Ă© que essa lacuna de informação invisibiliza as desigualdades raciais no policiamento.
Segundo os dados apurados, houve também concentração geogråfica das prisÔes no centro da cidade e em bairros periféricos, com destaque para o bairro do Brås e operaçÔes na região da Cracolùndia.
âEsses dados sugerem que o Smart Sampa reforça processos histĂłricos de segregação racial, vigilĂąncia desigual e policiamento seletivo, articulados ao racismo e Ă s desigualdades socioeconĂŽmicasâ, diz trecho do documento.
A anĂĄlise destaca, ainda, falhas tĂ©cnicas e falsos positivos, denunciam as entidades. O relatĂłrio indica que ao menos 23 pessoas foram conduzidas indevidamente por inconsistĂȘncias no reconhecimento facial e 82 pessoas foram presas e posteriormente liberadas.
Outra falha apontada na anĂĄlise Ă© sobre o uso do Smart Sampa para a localização de pessoas desaparecidas. â[A prefeitura] declara nĂŁo armazenar dados pessoais, o que Ă© incompatĂvel com o uso de reconhecimento facial e levanta dĂșvidas sobre quais bases de dados alimentam o sistema e como sĂŁo tratadas informaçÔes de crianças e adolescentes, em desacordo com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD)â, alertam as organizaçÔes.Â
Outro lado
A prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Segurança Urbana, informou que dados oficiais da SSP mostram redução de roubos em geral, roubos de veĂculos e latrocĂnios no ano de 2025 na capital paulista.
âO contrato de operação tem vigĂȘncia de agosto de 2023 a agosto de 2028, com investimento mensal de atĂ© R$ 10 milhĂ”es. As cĂąmeras sĂŁo utilizadas exclusivamente para fins de segurança pĂșblica, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), e apresentam Ăndice de assertividade de 99,5%â, diz nota da pasta.
A gestĂŁo municipal acrescenta que âtodos os alertas gerados pelo sistema sĂŁo obrigatoriamente validados por agentes humanos”. “Esse rigor se reflete em um dado objetivo: nĂŁo houve registro de prisĂ”es injustas ou equivocadas decorrentes de abordagens iniciadas pelo sistema, conforme relatĂłrio de transparĂȘnciaâ.
Os resultados do programa Smart Sampa, atualizados pela secretaria, sĂŁo: prisĂŁo de 2.709 foragidos da Justiça, 3.650 prisĂ”es em flagrante, localização de 153 pessoas desaparecidas e o atendimento de 2.017 ocorrĂȘncias envolvendo veĂculos.




